Série América Latina | Da Primeira Cerveja aos Cartéis Mexicanos

Post Otavio Bopp

Uma análise da história do consumo e proibição de drogas recreativas para tentar entender o porquê do tráfico de drogas ser tão proeminente na América Latina.

Drogas Na Antiguidade

O consumo de drogas é um fato de todas as sociedades humanas. A evidência mais antiga da produção de uma bebida alcoólica vem da China, 9 mil anos atrás. A produção de álcool foi desenvolvida de forma independente por diversas culturas no Oriente Médio e nas Américas. As primeiras evidências da produção de ayahuasca por xamã na Amazônia datam de apenas mil anos atrás, mas o consumo de substâncias alucinógenas naturais é tão antigo que antecede o próprio Homo sapiensdiversas espécies animais são observadas na natureza buscando substâncias que alteram seu estado mental, unicamente por seu valor recreativo.

Álcool, café, chás, tabaco, maconha, coca, ópio. Todas essas drogas naturais possuem uma história milenar, sendo consumidas de formas diferentes pelas inúmeras culturas por onde passaram, e hoje dão origem às drogas mais consumidas em todo o mundo. Nenhuma sociedade antes do século XVI tinha acesso a todas essas substâncias. Cada período, região e cultura possuía suas drogas favoritas, maneiras populares de consumi-las, uso aceitável de seus efeitos, e noções diferentes sobre os danos da embriaguez.

Após a queda do Império Romano do Ocidente, a droga predileta dos povos indo-europeus e afro asiáticos era o álcool. Antes das técnicas modernas de saneamento básico, beber cerveja era por vezes mais seguro do que beber água para se hidratar. O consumo de álcool comumente se iniciava antes que um bebê soubesse falar ou caminhar, e seu consumo excessivo era regra em qualquer celebração. O poder destrutivo e viciante do álcool também é conhecido desde a antiguidade.

O Islã, O Álcool e Seus Substitutos

ALCORÃO 5:90

“Ó fiéis; as bebidas inebriantes, os jogos de azar, a dedicação às pedras e as adivinhações com setas; são manobras abomináveis de Satanás. Evitai-os, pois, para que prospereis.”

ALCORÃO 2:219

“Interrogam-te a respeito da bebida inebriante e do jogo de azar; dize-lhes: Em ambos há benefícios e malefícios para o homem; porém, os seus malefícios são maiores do que os seus benefícios.

Disponível em ntoxicantes (iqaraislam.com)

A quase 1400 anos, muçulmanos ao redor do mundo discutem o significado dessas palavras. Entre as interpretações mais extremas do islã, é *haram *consumir qualquer quantidade de álcool — mesmo no contexto médico — ou qualquer substância “inebriante”. No outro extremo, muçulmanos mais liberais acreditam que não é pecaminoso consumir o álcool ou substâncias similares, desde que com moderação. Historicamente, muitos muçulmanos argumentam que apenas o álcool deveria ser proibido, já que é a única substância explicitamente citada nessas duas passagens.

Na Idade Média, o califado e subsequentes governos islâmicos realizaram a maior campanha para a proibição de uma droga que o mundo viu até então. Como nos esforços de proibição modernos, uma parcela da sociedade nunca deixou de consumir álcool, mas a reputação da droga foi indefinidamente manchada nas sociedades islâmicas. O álcool não estaria mais em quase todas as refeições; não haveriam mais bares, mas um mercado negro que poderia — ou não — ser ignorado pelas autoridades.

Assim, o espaço foi aberto para a popularização do café, até então restrito à Etiópia, e para uma nova forma de se utilizar a maconha: processando a em forma de haxixe, consumido por seus efeitos psicoativos. Ambas substâncias não foram universalmente aceitas pelas comunidades islâmicas. Sem uma condenação explícita, porém, elas atingiam uma popularidade muito superior ao que encontrariam em sociedade onde beber era socialmente aceito.

Na Europa, o café só se popularizaria no final do século XVIII, e o uso da maconha como droga era quase desconhecido — a planta era cultivada por seu cânhamo, com baixíssimo teor de THC. O uso do haxixe era visto como uma curiosidade dos exóticos islâmicos, seus efeitos eram exagerados e a droga nunca cruzou o mediterrâneo. A Europa se fascinava com novas formas de consumir o álcool, com a popularização de bebidas destiladas. Em nenhuma outra sociedade o álcool era tão popular em todos os segmentos da sociedade.

Drogas no Novo Mundo, Drogas Industriais

A colonização das Américas marca o início do mundo globalizado, e o intercâmbio colombiano trouxe ao novo mundo o ópio e a maconha, enquanto levava o tabaco para o velho continente. Nos Andes, as folhas de coca eram utilizadas para aliviar os efeitos das altas altitudes, com baixo potencial recreativo. O café e o tabaco lentamente ganharam o gosto popular, mas a droga recreativa de escolha dos colonos continuava o álcool.

A revolução industrial foi seguida de enormes avanços na química. A indústria farmacêutica, capitalista e industrial, se formava. Em 1859, a cocaína foi extraída pela primeira vez das folhas de coca, pelo químico alemão Albert Niemann. Nas décadas seguintes, ela se tornaria um ingrediente de remédios e outros produtos, notavelmente a Coca-Cola, em 1886. O narcótico permaneceria no refrigerante pelos próximos 20 anos. A química moderna também conseguiu dar uma nova potência ao ópio — que passava pelo pico de sua popularidade como droga recreativa na Ásia — , com a morfina sendo isolada em 1803, a codeína em 1843 e a heroína em 1898. Remédios com essas substâncias eram vendidos livremente, sem qualquer restrição de idade, controle independente de sua eficácia, ou avisos sobre seus potenciais riscos.

Engana-se quem acredita que países não industrializados — como o Brasil e a América Latina como um todo — estavam longe dessa nova indústria farmacêutica e seus riscos. Com vastas redes de comércio internacional, essas drogas chegavam mesmo nas farmácias de pequenas cidades brasileiras, longes de qualquer indústria

<img src=”https://tokdehistoria.com.br/tag/erythroxylon-coca/” alt=”Anúncio da década de 1920 de uma bebida produzida com cocaína em uma farmácia de Caicó, Rio Grande do Norte. Imagem disponível em Tok de História” />

A primeira máquina de enrolar cigarros foi inventada em 1880, permitindo um *boom *na produção e consumo da droga, que já era popular. A invenção tornou fumar tabaco mais conveniente, Demoraríamos até a década de 1940 para encontrarmos uma relação entre o fumo de cigarros e o câncer. Com novas técnicas de produção industrial, o consumo de álcool no mundo ocidental atingiu níveis ainda superiores aos de séculos passados. A sociedade vitoriana era apaixonada por drogas, e sofria com o vício e embriaguez por elas causada.

O século XIX viu florescer os primeiros movimentos para a proibição do álcool no Ocidente, e as primeiras décadas do século XX trouxeram os primeiros movimentos para a regulamentação da indústria farmacêutica . Há 100 anos, já vivíamos no mundo da globalização clássica, e movimentos saídos dos Estados Unidos rapidamente se espalhavam pela América Latina, a Europa e suas colônias. Em 1910, em todo o mundo ocidental era possível comprar um elixir feito com cocaína tão facilmente como ao comprar uma barra de chocolate, gerando uma verdadeira crise de opióides . Em 1940, todos os países ocidentais haviam desenvolvido regulações e mecanismos de fiscalização que impediam o livre comércio de drogas.

No período da criação destas regulações, o uso da maconha de forma recreativa ainda era desconhecido pela população geral — e muitas vezes era atrelado a minorias consideradas inferiores. Uma das primeiras leis contra o uso recreativo da maconha vem do município do Rio de Janeiro, em 1830, seguinte a popularização de seu fumo por escravos após longas jornadas de trabalho. Nos Estados Unidos, a droga era associada à minoria mexicana, apesar de seu consumo não ser especialmente popular no próprio México. Em ambos os casos, argumentos sobre os efeitos destrutivos da maconha faziam referência a estereótipos racistas, culpando o uso da maconha a supostas falhas no caráter de grupos minoritários.

As histórias sobre os efeitos da maconha reportadas no período eram tão, se não mais, fantasiosas do que aquelas contadas na Europa medieval sobre o haxixe no mundo islâmico. O maior exemplo dessas histórias é o filme Reefer Madness (1936), filmado um ano antes da *de facto *proibição federal da maconha nos Estados Unidos.

Na história do filme, a maconha é uma droga psicodélica extremamente potente com a capacidade de estragar vidas. Seu uso gera alucinações, extrema agitação, aumento da agressividade e perda das noções de espaço e tempo do usuário. A maconha leva personagens do filme a cometerem estupros, assassinatos e causarem acidentes automotivos fatais. Entre as cenas mais chocantes do filme, vemos um suicídio, e um homem sendo agredido até a morte.

O público geral, ciente dos males causados por opióides e a cocaína, sem conhecimento sobre os efeitos da maconha, acreditava em histórias fantasiosas como essa. A indústria de fibras sintéticas se beneficiava com qualquer dano gerado à indústria do cânhamo, e os relatos chocantes e fictícios atraiam leitores para os jornais. O próprio Reefer Madness se vendia como um filme educativo para pais e adolescentes, mas encontraria seu sucesso junto ao circuito de filmes “exploitation”, aproveitando de seu carácter antidrogas para mostrar sexo e violência nas telas sem assustar os censores. No final dos anos 1930, a maconha seria proibida completamente no Brasil, nos Estados Unidos, e na maior parte do mundo.

O Tráfico na América Latina — Formação de Governos Paralelos

Quando a Guerra às Drogas foi declarada, ficava claro que a América Latina seria um de seus grandes campos de batalha. Isso porque a região é extremamente favorável para a produção de algumas das drogas mais populares do século XX. Assim como o café só pode ser produzido em larga escala em seletas regiões do mundo, o mesmo vale para algumas drogas ilícitas. A geografia da Colômbia e do México é propícia para o cultivo de ópio, base de inúmeras drogas ilegais. A folha de coca cresce quase exclusivamente nos Andes, e essa região estava fadada a produzir a maior parte da cocaína consumida no mundo.

Quando governos latino-americanos adotaram a guerra contra as drogas, ofereceram ao crime organizado controle exclusivo de um mercado de entorpecentes em franca expansão. Porém, o maior fator de expansão do tráfico não foi o fácil acesso à matéria prima, mas sim a pobreza e desigualdade de renda das regiões onde eles se instalaram. Em toda a América Latina, podemos notar que o crime se instaura onde o Estado não consegue — ou não quer — chegar.

A renda gerada pelo tráfico de drogas permite que algumas formas governamentais cheguem em regiões pobres. Traficantes se tornam responsáveis por resolver disputas de moradores locais, oferecem assistência a vizinhos necessitados, proíbem pequenos crimes como assaltos, cobram “proteção” para negócios locais — que funciona como um imposto — , estipulam regras para o consumo de drogas e até lidam com grandes crimes, como estupros e assassinatos. É interessante notar que esse tipo de instituição se forma em diferentes comunidades que sofrem com a pobreza pelo mundo, tomando nomes como cartel, gangues, máfia ou yakuza. Nos Estados Unidos, a queda do poder da Máfia está diretamente relacionada ao enriquecimento das comunidades descendentes de imigrantes europeus.

As punições oferecidas pelo crime organizado geralmente são barbáricas. Quando nos lembramos das punições que governos do passado ofereciam a criminosos — corte de partes do corpo, tortura, execuções públicas, decapitações, queimar pessoas vivas -, elas não parecem surpreendentes para um governo nascente.

Ao mesmo tempo, o que um traficante considera criminoso nem sempre é o que a justiça considera criminoso. No mundo do crime pode ser perfeitamente aceitável matar alguém por ser o amante da sua namorada. O crime mais hediondo geralmente é delatar alguém do grupo por qualquer motivo: todos são criminosos ali nos olhos da lei, e todos devem ser protegidos. Adentrar o território de outra gangue ou deixar de pagar uma dívida pode ser um crime muito maior do que o latrocínio, merecendo a mesma punição pública reservada a assassinos e pedófilos.

As instituições do tráfico são fortes como a de um governo real, e continuam ali independente da presença de líderes específicos. Quando a polícia tenta remover essas instituições com seu poder de fogo, apenas obriga o tráfico a responder com a mesma força, estar preparado para reagir quando a polícia se aproximar, e o incentiva a controlar suas regiões com ainda mais jugo. A demanda por drogas continuará a mesma, seus usuários continuarão dispostos a pagar o valor necessário para que os traficantes continuem atropelando a lei, e todos os dias novos garotos decidem que o dinheiro oferecido pelo tráfico é suficiente para que arriscar sua vida e liberdade.

Esse poder bélico também incentiva a guerra entre facções. Se fast foods se tornassem ilegais, e o McDonalds precisasse de um exército armado para proteger suas lanchonetes, é provável que ele utilizaria esse exército para subjugar o Burger King. Afinal, um exército possui duas funções: defender e conquistar. No ambiente certo, uma guerra entre gangues pode gerar um aumento tão substancial aos lucros da facção vencedora, que seus líderes estão dispostos a gastar homens, balas, dinheiro e gerar caos social — chamando a atenção das autoridades — em troca desse possível aumento em seus lucros.

Os Sucessos do Tráfico de Drogas

Toda essa violência significa que viver perto de uma área controlada pelo tráfico de drogas pode ser uma experiência assustadora e infernal. Mas o tráfico de drogas também pode proporcionar experiências genuinamente positivas para as populações locais, e é por isso que crime organizado é tão bem sucedido na América Latina.

No Brasil, muitas favelas são completamente dominadas pelo tráfico, de tal forma que gangues fecham as portas de suas comunidades para serviços públicos. As favelas também são as regiões mais pobres das cidades brasileiras, historicamente sofrendo com a falta de serviços públicos e saneamento básico. O tráfico traz riqueza e trabalho para pessoas dessa região, da mesma forma que traz mortes e medo.

Hoje, mais de 15% da população mexicana reside na região metropolitana da Cidade do México. Historicamente, o governo central não conseguia controlar as regiões mais distantes da capital, especialmente o norte do país. Por isso, no século XIX, os Estados Unidos conseguiram tomar mais da metade do território mexicano em uma única guerra. 150 anos depois, cartéis dominam cidades inteiras, sendo o verdadeiro governo para milhões de mexicanos. Os cartéis mexicanos podem ser especialmente violentos e brutais, mas as regiões dominadas por cartéis reportam uma qualidade de vida superior àquelas dominadas pelo governo central em quase todos os sentidos: maior renda, educação, e mesmo menor taxa de corrupção. O governo central não conseguirá retomar seu país enquanto seus cidadãos viverem vidas melhores sob o domínio do Estado paralelo.

Em meados do século passado, o governo central da Colômbia também perderia grande parte de seu território, dessa vez para grupos revolucionários — notavelmente as Forças Armadas Revolucionárias Colombianas, as FARC. A população local vivia em um estado de pobreza tão grande, que muitos sentiram a necessidade de declarar uma república insurgente e atacar as forças do governo central que tentassem dominá-los. Nos anos 1970 e 1980, a cocaína atingiu o pico de sua popularidade, e narcotraficantes podiam trazer riquezas inimagináveis para as comunidades rurais que lhes fornecessem a coca para a produção do entorpecente. Entre seus gastos opulentos, Pablo Escobar nunca esqueceu de oferecer festas e serviços caritativos para a população local. A relação das FARC com o narcotráfico foi conturbada, mas nos anos 1980 a produção de cocaína foi “legalizada” nas regiões dominadas pelo grupo, em troca de um imposto por sua produção.

O cultivo de coca é possível do Chile e Argentina até a Venezuela, mas apenas a Colômbia teve que lidar com narcotraficantes tão poderosos quanto Pablo Escobar. Apenas a Colômbia passava por tamanho caos social que precisava ativamente lutar contra grupos insurgentes dentro de seu território. Chile, Argentina e, até as últimas décadas, a Venezuela possuíam uma qualidade de vida consideravelmente superior à dos outros países andinos, e, consequentemente, tinham a menor produção de cocaína da região.

Nos últimos 5 anos, o ponto mais tenso da guerra às drogas foi a América Central, ao Norte da Costa Rica e Sul do México; onde o tráfico de drogas é tão intenso e violento que milhões de pessoas tentam deixar seus países para se refugiarem nos Estados Unidos. Os 4 países dessa região também possuem os menores índices de desenvolvimento humano de toda a América Ibérica.

Mais uma vez, o problema das drogas não é isolado. Esta foi a região mais instável da América Latina no último século, sofrendo com invasões americanas, guerras civis que se estenderam até os anos 1990, e alguns dos piores resultados socioeconômicos das Américas. A falta de oportunidades econômicas gera um ambiente propício ao tráfico.

Tráfico e Consumo de Drogas — Problemas Sociais com Soluções Sociais

Foto por GB REC

Do traficante ao consumidor final, o tráfico e o abuso de drogas são problemas sociais, que precisam ser combatidos com incentivos econômicos. A proibição das drogas e a repressão violenta do seu comércio atuam em pontos muito específicos da demanda e oferta, mas são insuficientes para impedir que o mercado se movimente. Ao mesmo tempo, essas ações deram ao crime organizado controle de um enorme mercado internacional, e ele utilizou esse poder para trazer violência e riqueza para as regiões mais pobres da América Latina.

A repressão violenta ao tráfico intensifica os problemas sociais que causam tanto o tráfico de drogas como o abuso de drogas. Matar ou aprisionar traficantes não muda as condições sociais que fazem pessoas escolherem traficar drogas; mas tira cidadãos que poderiam ser produtivos da sociedade, destrói famílias, e fertiliza o solo para que jovens sigam os caminho do vício e do crime. Vivemos em uma região especialmente desigual permeada por pobreza, e por isso o crime organizado é tão bem sucedido.

Se quisermos realmente acabar com o tráfico e abuso de drogas, será preciso deixar nossas armas de lado e declarar guerra à pobreza. Nada mais permitirá que o Brasil tome controle de suas favelas, que o México controle todas as cidades dentro de seu território, que a Colômbia controle sua população rural, ou que a América Central acabe sua crise de refugiados.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.